Há um velho ensinamento na política: nenhuma oposição é tão eficiente em derrotar um governo quanto uma oposição que consegue entrar em guerra consigo mesma.
É exatamente isso que o campo bolsonarista volta a oferecer ao eleitor brasileiro.
Enquanto o país discute inflação, emprego, segurança pública e crescimento econômico, uma das principais figuras ligadas ao bolsonarismo, Paulo Figueiredo, prefere abrir uma nova frente de desgaste ao afirmar que as mulheres "votam muito mal" e atacar Michelle Bolsonaro, chamando-a de "feminista".
O episódio não representa apenas mais uma polêmica. Representa um retrato da desorganização que passou a marcar a direita brasileira.
O problema não está apenas na declaração.
O problema é que, mais uma vez, a crise nasce dentro da própria direita. Não foi o PT quem criou o desgaste. Não foi Lula quem provocou a divisão. O incêndio começou entre aqueles que deveriam estar do mesmo lado.
É uma sucessão de conflitos que parece não ter fim.
Primeiro, disputas entre lideranças nacionais. Depois, divergências sobre estratégia eleitoral. Agora, ataques públicos envolvendo justamente Michelle Bolsonaro, considerada uma das principais pontes do PL com o eleitorado feminino, isso tudo, sem falar dos áudios de Flávio Bolsonaro em contato com Vorcaro.
Enquanto isso, Lula assiste.
E agradece.
Não por acaso, o presidente aparece novamente na liderança das pesquisas nacionais. É evidente que o desempenho eleitoral depende de diversos fatores, mas seria ingenuidade ignorar que um adversário dividido, ocupado em resolver suas próprias crises, facilita a vida de quem está no poder.
A política não perdoa quem perde o foco.
No Paraná, os reflexos desse ambiente são inevitáveis. O senador Sergio Moro é o principal nome do PL na disputa pelo Governo do Estado e integra o projeto político da legenda. Embora responda por suas próprias posições, sua candidatura está inserida em um campo político que, repetidamente, precisa administrar crises provocadas por aliados, influenciadores e lideranças identificadas com o bolsonarismo.
Em vez de discutir propostas para o Paraná, o partido frequentemente se vê obrigado a administrar desgastes produzidos pelo próprio grupo.
Essa é uma armadilha eleitoral.
Toda vez que o noticiário é ocupado por conflitos internos, declarações polêmicas ou disputas ideológicas, a oposição deixa de falar com o eleitor comum para conversar apenas com sua própria bolha. E eleição não se vence apenas convencendo quem já concorda. Ela se vence ampliando apoios, especialmente entre os indecisos e os eleitores moderados.
É justamente nesse ponto que a direita parece insistir no erro.
Em vez de construir uma agenda capaz de dialogar com a maioria da população, parte de seus porta-vozes prefere transformar cada semana em uma nova controvérsia. O resultado é previsível: perde-se tempo, desperdiça-se capital político e entrega-se ao PT o melhor cenário possível.
A maior ironia é que Lula não precisa responder a cada uma dessas crises. Seus adversários fazem esse trabalho sozinhos.
Na política, existe uma regra simples: quem não consegue administrar a própria casa dificilmente convence o eleitor de que está preparado para administrar um Estado ou o país.
Se o bolsonarismo continuar produzindo uma crise atrás da outra, não será surpresa se as próximas pesquisas confirmarem aquilo que as atuais já começam a indicar: o maior aliado eleitoral de Lula pode estar, justamente, dentro do campo adversário.
Leia abaixo a declaração do bolsonaristsa Paulo Figueiredo:
Mulher, em geral, vota muito mal, a única exceção é o Ronald Reagan, que teria ganhado junto às mulheres também na reeleição. Mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente mulheres solteiras, mulheres casadas em geral tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras não, isso que eu tô dizendo, pode arrancar os pentelhos das calcinhas, pode fazer o que você quiser, principalmente os feministas que tem mais pentelhos. Mas eu quero dizer uma coisa a vocês, isso é estatística. Ora, quem lidera hoje o voto feminino? Lula.Quem liderou o voto feminino na última eleição? Lula. Pega pra trás, é sempre a esquerda. E o que o PL Mulher tem feito para melhorar essa história? Rosca. Zero, disse na gravação.
