Existem problemas que uma cidade aprende a conviver. E existem problemas que precisam ser enfrentados.
O trem de carga cortando Curitiba ao meio pertence à segunda categoria.
Há décadas, milhares de curitibanos convivem diariamente com cancelas fechadas, congestionamentos, acidentes, ruídos e uma logística ferroviária incompatível com uma capital que se tornou referência mundial em mobilidade urbana. Não faz sentido que Curitiba continue pagando essa conta.
Muito antes de assumir a Prefeitura, Eduardo Pimentel já tratava o tema como prioridade. Ainda como vice-prefeito, esteve em Brasília defendendo que a renovação da concessão da Malha Sul contemplasse uma solução definitiva para retirar o transporte ferroviário de cargas da área urbana da capital. Agora, como prefeito, transformou essa reivindicação em uma das principais bandeiras de sua gestão.
A mobilização ganhou força porque o problema deixou de ser apenas técnico.
Hoje, a ferrovia atravessa bairros densamente povoados, interrompe o trânsito dezenas de vezes ao dia, atrasa linhas de ônibus, aumenta o risco de acidentes e compromete a qualidade de vida de milhares de moradores. Curitiba cresceu. A cidade mudou. A ferrovia, infelizmente, permaneceu praticamente a mesma.
A defesa de Eduardo Pimentel é simples e difícil de contestar: o Paraná precisa de uma ferrovia moderna para o transporte de cargas, mas Curitiba não pode continuar sendo penalizada por um traçado concebido para outra realidade urbana. Modernizar a logística do Estado não significa manter um problema histórico dentro da capital. Pelo contrário, significa encontrar uma solução que beneficie tanto a economia quanto a população.
O debate ganha ainda mais importância porque a nova concessão da Malha Sul poderá definir o futuro da ferrovia pelos próximos trinta anos.
Se Curitiba perder essa oportunidade, corre o risco de conviver com os mesmos transtornos por mais uma geração. É justamente por isso que a Prefeitura intensificou as articulações junto ao Governo Federal, à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e aos parlamentares federais.
Alguns poderão dizer que a obra é complexa e cara. É verdade.
Mas também era complexo construir a Linha Verde. Era complexo implantar o sistema BRT que transformou Curitiba em referência internacional. Grandes cidades são construídas por gestores que enfrentam problemas históricos, e não por aqueles que aprendem a conviver com eles.
Eduardo Pimentel parece ter compreendido isso.
Ao colocar novamente o tema na agenda nacional, deixa claro que não pretende aceitar a permanência dos trilhos simplesmente porque "sempre foi assim". Sua atuação demonstra que algumas batalhas exigem persistência, diálogo e pressão política contínua.
A retirada dos trens de carga da área urbana não representa apenas uma obra de infraestrutura.
Representa uma decisão sobre o futuro da cidade.
Curitiba não pode entrar na próxima concessão ferroviária apenas como território de passagem. Precisa ser protagonista das decisões que impactarão diretamente sua mobilidade, sua segurança e seu desenvolvimento urbano.
Depois de décadas de promessas, talvez tenha chegado o momento de transformar uma reivindicação histórica em política pública.
Curitiba merece deixar de esperar o trem passar para começar a pensar no futuro.
