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Pesquisa eleitoral ou propaganda disfarçada? O eleitor paranaense merece saber o que existe por trás dos números

O problema está na forma como números diferentes são transformados em narrativas políticas, quase sempre com...

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Redação25/09/2026
Pesquisa eleitoral ou propaganda disfarçada? O eleitor paranaense merece saber o que existe por trás dos números

Quando institutos divulgam fotografias tão diferentes e a imprensa transforma o cenário estimulado em manchete, quem ganha informação — e quem ganha propaganda?

Há algo errado na maneira como boa parte da imprensa paranaense está tratando as pesquisas eleitorais nesta reta final.

Não necessariamente porque os institutos estejam errados. E muito menos porque se possa afirmar, sem prova, que algum levantamento esteja sendo manipulado.

O problema está na forma como números diferentes são transformados em narrativas políticas, quase sempre com o cenário estimulado estampado na manchete e a pesquisa espontânea relegada a uma nota de rodapé.

E isso, em vez de esclarecer o eleitor, pode aumentar a confusão.

Basta olhar para os números mais recentes.

A Neokemp encontrou 48,7% para Sergio Moro, 25,9% para Requião Filho e 20,8% para Sandro Alex. A Quaest encontrou 36%, 20% e 20%, respectivamente. Já o Índice Inteligência apresentou 35% para Moro, 32% para Sandro Alex e 20% para Requião Filho. Os trabalhos de campo foram realizados em períodos muito próximos.

É uma diferença brutal.

  • Na Neokemp, Moro abre mais de 20 pontos sobre Sandro.
  • Na Quaest, a distância é de 16 pontos.
  • No Índice Inteligência, são apenas três.

Qual dessas fotografias representa melhor o momento eleitoral?

É justamente essa pergunta que deveria estar no centro da cobertura jornalística.

O eleitor recebe o número — mas não recebe a explicação

Pesquisa eleitoral não é resultado de eleição.

É uma fotografia estatística produzida a partir de uma determinada metodologia, em determinado período, com determinada amostra e determinado questionário.

Então por que a manchete costuma ser apenas:

  • “Moro tem 48,7%.”

ou

  • “Moro lidera com 36%.”

ou

  • “Moro tem 35% e Sandro chega a 32%.”

A metodologia fica escondida no final da reportagem.

E o eleitor fica com o número.

Isso é insuficiente.

Quando três pesquisas realizadas praticamente na mesma semana contam histórias tão diferentes, a metodologia deixa de ser um detalhe técnico e passa a ser notícia.

O problema do cenário estimulado

Existe ainda uma questão jornalística que precisa ser enfrentada.

Na pesquisa estimulada, o entrevistador apresenta ao eleitor uma lista de candidatos e pergunta em quem ele votaria.

Na espontânea, a pergunta é aberta: “Em quem você pretende votar para governador?”

Não há uma lista de nomes para ajudar o entrevistado a lembrar dos candidatos.

São duas perguntas diferentes.

E exatamente por isso elas medem coisas diferentes.

O problema é que, na cobertura jornalística, a primeira costuma ser tratada como “a pesquisa”, enquanto a segunda aparece como se fosse apenas uma curiosidade adicional.

Não deveria ser assim.

A espontânea revela algo fundamental: quais nomes estão efetivamente presentes na cabeça do eleitor quando ninguém os apresenta a ele.

Isso é politicamente relevante.

Na pesquisa Quaest, por exemplo, Sandro Alex passou de 4% para 9% na espontânea, enquanto Moro passou de 13% para 21% e Requião Filho de 7% para 11%. Ao mesmo tempo, os eleitores que não apontaram espontaneamente nenhum candidato caíram de 73% para 57%.

Na pesquisa do Paraná Pesquisas divulgada no início de setembro, 51,2% não sabiam espontaneamente em quem votar, enquanto no cenário estimulado Moro chegava a 45%.

São números que contam uma história muito diferente da manchete baseada exclusivamente na estimulada.

A espontânea não é “a verdade”. Mas também não é rodapé.

É preciso fazer uma ressalva para não cair no mesmo erro que estamos criticando.

A espontânea não é automaticamente mais correta do que a estimulada.

Um eleitor pode não lembrar espontaneamente do nome de um candidato e, ao vê-lo na lista, reconhecer que pretende votar nele.

Isso é absolutamente legítimo.

Por isso, as duas perguntas precisam ser analisadas conjuntamente.

O problema é transformar uma delas em manchete e a outra em nota de rodapé.

Porque, quando o eleitor recebe a lista de candidatos, o instituto está também fornecendo uma informação que não estava necessariamente presente na cabeça daquele eleitor.

E isso altera a natureza da resposta.

A pergunta espontânea responde:

“Quem está na cabeça do eleitor?”

A estimulada responde:

“Depois de apresentados os candidatos, em quem ele declara que votaria?”

São informações diferentes.

E o leitor merece conhecer as duas com o mesmo destaque.

E é aqui que entra a propaganda

Pesquisa eleitoral pode ser informação.

Mas a maneira como ela é apresentada pode transformá-la em instrumento de propaganda política.

Se uma pesquisa coloca determinado candidato muito à frente, a manchete produz uma percepção de liderança.

Essa percepção pode gerar a ideia de que aquele candidato “já ganhou”, estimular voto útil, desestimular adversários ou simplesmente reforçar uma imagem de força eleitoral.

Não é necessário que exista manipulação dos números para que isso aconteça.

A própria seleção do número que vira manchete já produz um efeito político.

Por isso, veículos de comunicação e jornalistas que cobrem política precisam ter responsabilidade redobrada.

Não basta publicar o resultado.

É preciso contextualizar.

O caso Sandro Alex é emblemático

Sandro Alex oferece o exemplo mais evidente de como uma mesma eleição pode produzir narrativas completamente diferentes.

Na Neokemp, ele aparece com 20,8%.

Na Quaest, com 20%.

No Índice Inteligência, com 32%.

A diferença entre 20% e 32% não é um detalhe.

Mas também não permite afirmar simplesmente que Sandro “cresceu 12 pontos”.

São pesquisas diferentes.

O que pode ser analisado com muito mais segurança é a trajetória dentro de cada instituto.

E é aí que aparece uma informação que merece atenção.

  • Na série do Índice Inteligência, Sandro vem avançando: 27,6%, 28,6%, 30,6% e agora 32%.
  • Na Quaest, passou de 15% para 20% na estimulada. E na espontânea foi de 4% para 9%.

Ou seja: independentemente da diferença entre os institutos, há uma curva de crescimento de Sandro dentro dos levantamentos que permitem comparação histórica.

Isso é mais importante do que escolher um número isolado.

Pesquisa é momento — mas também é movimento

Esse é um princípio que parece ter sido esquecido por parte da cobertura eleitoral.

  • Uma pesquisa registra um momento.
  • Mas uma eleição não é um momento.

É um processo.

Por isso, o número de hoje importa, mas a curva importa tanto quanto o número.

Um candidato com 30% que vem caindo pode estar em situação politicamente diferente de outro com 25% que vem crescendo.

O primeiro tem um número maior.

O segundo pode estar apresentando uma trajetória ascendente.

A fotografia mostra onde o candidato está.

A série histórica mostra para onde ele está indo.

E é justamente essa segunda informação que muitas vezes desaparece das manchetes.

E Moro?

O mesmo critério precisa ser aplicado a Sergio Moro.

Não basta dizer que ele lidera.

É necessário observar como essa liderança está se comportando dentro de cada série histórica.

Na Quaest, Moro passou de 37% para 36%. Na série recente da Neokemp, ficou praticamente estável em patamar elevado: 46,9%, 48,8% e 48,7%. Já o Índice Inteligência registrou 35,3%, 36,8%, 35,3% e agora 35%.

Portanto, os dados não autorizam simplesmente uma manchete dizendo que Moro “está despencando”.

Mas também não autorizam ignorar que a curva de Sandro é ascendente em algumas séries e que a distância entre os dois diminuiu no Índice Inteligência.

A análise responsável precisa comportar as duas coisas.

O jornalismo político precisa sair da lógica do “quem está na frente”

A cobertura eleitoral não pode virar uma sucessão de manchetes sobre quem está liderando.

  • Pesquisa não é corrida de cavalo.

O eleitor não precisa saber apenas quem está em primeiro.

Precisa saber:

  • como a pergunta foi feita;
  • quem foi entrevistado;
  • quando foi entrevistado;
  • qual foi a margem de erro;
  • qual foi o tamanho da amostra;
  • qual foi o método de coleta;
  • qual foi o resultado espontâneo;
  • qual foi o resultado estimulado;
  • qual foi a rejeição;
  • e, sobretudo, qual foi a evolução em relação às pesquisas anteriores do mesmo instituto.

Sem isso, o número vira manchete.

E manchete, em campanha eleitoral, pode virar narrativa.

E narrativa pode virar propaganda.

O eleitor merece mais do que um ranking

A imprensa tem um papel fundamental justamente quando a disputa está mais acirrada.

Não deveria entregar ao eleitor apenas:

“Fulano lidera.”

Deveria explicar:

“Este instituto encontrou isso; aquele encontrou aquilo; as metodologias são estas; a espontânea mostra isso; a estimulada mostra aquilo; e a série histórica indica este movimento.”

Isso é jornalismo.

O resto corre o risco de ser apenas reprodução de release eleitoral.

No fim, a pergunta não deveria ser “quem está na frente?”

Deveria ser:

“O que realmente mudou no eleitorado?”

E, olhando para os levantamentos recentes, uma coisa chama atenção: Sandro Alex aparece em trajetória de crescimento dentro de diferentes séries, enquanto Moro apresenta estabilidade ou pequenas oscilações, dependendo do instituto.

Isso não significa que Sandro necessariamente ultrapassará Moro.

Não significa que chegará ao segundo turno.

E não significa que uma pesquisa seja mais verdadeira que outra.

Significa apenas que a eleição não pode ser interpretada por uma fotografia isolada.

Porque, quando faltam poucos dias para a votação, o que realmente importa não é apenas onde cada candidato está.

É a direção da curva.

E talvez seja justamente isso que esteja faltando em boa parte da cobertura eleitoral do Paraná.