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O Paraná se antecipou ao envelhecimento da população — e acertou ao transformar moradia em política social

O verdadeiro diferencial está em compreender que a maior necessidade de muitos idosos não é apenas uma casa

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Redação23/07/2026
O Paraná se antecipou ao envelhecimento da população — e acertou ao transformar moradia em política social

Foto: divulgação Cohapar

Há políticas públicas que geram impacto imediato e há aquelas cujos resultados aparecem apenas anos depois. O programa Viver Mais Paraná, que criou condomínios exclusivos para idosos de baixa renda, pertence à segunda categoria. É uma iniciativa que talvez não produza o mesmo retorno político de uma grande obra de infraestrutura, mas responde a uma das maiores transformações demográficas do século XXI: o envelhecimento acelerado da população.

Os números ajudam a compreender a dimensão desse desafio. Segundo projeções citadas pelo Governo do Paraná, até 2030 o Estado terá mais idosos do que crianças, invertendo uma realidade histórica e exigindo uma nova forma de pensar as políticas públicas.

A resposta encontrada pelo governo paranaense foi não esperar que esse problema chegasse. Desde 2019, a Cohapar estruturou o programa Viver Mais Paraná, que hoje reúne 32 condomínios entregues, em obras ou em diferentes fases de implantação, com investimentos que alcançam aproximadamente R$ 244 milhões.

À primeira vista, pode parecer apenas um programa habitacional. Mas essa leitura é superficial.

O verdadeiro diferencial está em compreender que a maior necessidade de muitos idosos não é apenas uma casa. É um ambiente onde possam continuar vivendo com autonomia, segurança e convivência social.

O Brasil ainda constrói boa parte de suas políticas voltadas à terceira idade sob uma lógica reativa: amplia hospitais, cria programas de medicamentos e expande serviços assistenciais. Tudo isso é necessário. Mas o Paraná optou por atuar antes que esses problemas se agravem.

Os condomínios do Viver Mais são planejados justamente para retardar ou reduzir situações que frequentemente levam idosos ao isolamento, à depressão e ao aumento da demanda pelos serviços públicos de saúde.

Cada empreendimento possui 40 casas adaptadas, acessibilidade completa, centro de convivência, academia ao ar livre, biblioteca, horta comunitária, áreas de lazer e, nas unidades mais recentes, até piscina aquecida para hidroginástica, além de sistemas de energia solar e reaproveitamento de água da chuva. Os moradores também recebem acompanhamento periódico das equipes municipais de saúde e assistência social.

Essa estrutura revela uma mudança importante de paradigma.

O Estado deixa de enxergar o idoso apenas como destinatário de assistência e passa a tratá-lo como cidadão que continua produzindo relações sociais, exercendo autonomia e participando da comunidade.

Esse aspecto talvez seja o mais relevante.

Estudos sobre envelhecimento mostram que a solidão é um dos principais fatores associados ao agravamento de doenças físicas e emocionais. Idosos isolados apresentam maiores índices de depressão, perda cognitiva, sedentarismo e internações hospitalares. Ao incentivar a convivência diária entre moradores da mesma faixa etária, o programa atua justamente na prevenção desses problemas — algo muito mais eficiente e menos oneroso do que enfrentá-los apenas quando já estão instalados.

Há ainda outro elemento que merece destaque.

Diferentemente dos modelos tradicionais de habitação popular, as unidades do Viver Mais não são transferidas definitivamente aos moradores. Os beneficiários pagam apenas um aluguel social equivalente a 15% do salário mínimo, atualmente R$ 243,15, e podem permanecer no imóvel enquanto preencherem os requisitos do programa. Quando a unidade é desocupada, ela retorna automaticamente ao patrimônio público para atender outro idoso inscrito.

Na prática, isso cria uma política pública permanente.

Não se trata de um patrimônio que deixa de cumprir sua função social após a primeira ocupação. O investimento continua beneficiando sucessivas gerações de idosos, ampliando a eficiência do gasto público.

Essa lógica merece atenção porque rompe com uma tradição brasileira de políticas voltadas apenas para a entrega de bens. O foco passa a ser a manutenção de um serviço público contínuo, capaz de atender milhares de pessoas ao longo das próximas décadas.

Também chama atenção a mudança de prioridade nas políticas estaduais.

Durante muito tempo, governos concentraram seus investimentos sociais em programas voltados à infância, à juventude ou ao mercado de trabalho. Todos permanecem importantes. Porém, poucos estados compreenderam que o envelhecimento da população exigiria uma nova agenda pública.

O Paraná decidiu incorporar essa discussão antes que ela se transformasse em crise.

Naturalmente, nenhum programa resolve sozinho todos os desafios da terceira idade. O Estado continuará precisando ampliar a rede de saúde, fortalecer a atenção básica, investir em mobilidade urbana acessível e ampliar políticas de cuidados de longa duração.

Mas é impossível ignorar que o Viver Mais representa uma mudança de visão.

Ao investir cerca de R$ 244 milhões em uma rede estadual de condomínios voltados exclusivamente aos idosos, o governo deixa uma mensagem clara: envelhecer com dignidade não deve depender exclusivamente da renda familiar ou da estrutura dos filhos.

Em um país que envelhece rapidamente, talvez o maior mérito do programa não esteja apenas nas casas construídas.

Está na capacidade de compreender que a política habitacional também pode ser política de saúde, assistência social, prevenção e qualidade de vida.

É justamente esse olhar integrado que diferencia uma obra pública de uma verdadeira política de Estado. E, nesse aspecto, o Paraná parece ter entendido antes de muitos que o maior desafio das próximas décadas não será apenas construir cidades para crescer, mas construir cidades capazes de cuidar de quem envelhece.

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