A provocação feita por Ratinho Junior, ao afirmar que "o Paraná nunca foi plano B para o nosso grupo", atinge um ponto que Sergio Moro ainda não conseguiu responder de forma convincente: qual é o seu projeto para o Paraná?
Desde que ingressou na política, Moro construiu sua trajetória eleitoral apoiado em duas bandeiras centrais: o combate à corrupção e o enfrentamento ao PT. São temas que marcaram a política brasileira na última década, mas que, sozinhos, não respondem aos desafios concretos de um estado que lidera indicadores nacionais de crescimento econômico, atração de investimentos, educação pública e infraestrutura.
O problema para Moro é que o Paraná de 2026 não é o Brasil de 2018.
O eleitor paranaense quer saber quais são as propostas para ampliar a industrialização, fortalecer os municípios, expandir a infraestrutura logística, modernizar a segurança pública, gerar empregos e manter a competitividade do agronegócio. Quer saber como o próximo governador pretende dar continuidade aos avanços obtidos pelo Estado nos últimos anos.
Até agora, porém, o discurso de Moro continua preso ao passado.
Em praticamente todas as suas manifestações públicas, o senador retorna aos mesmos temas: corrupção e PT. Quando fala de corrupção, raramente apresenta diagnósticos concretos sobre problemas estruturais do Paraná ou propostas específicas para enfrentá-los. Quando fala de política nacional, o foco permanece na necessidade de derrotar o PT.
Mas uma candidatura ao Governo do Estado exige mais do que slogans nacionais. Exige um plano de governo.
Há ainda uma contradição política que inevitavelmente fará parte do debate eleitoral. O senador que construiu sua imagem como símbolo do combate à corrupção está politicamente alinhado ao grupo liderado por Flávio Bolsonaro.
Nos últimos meses, vieram a público gravações atribuídas a Flávio Bolsonaro nas quais o senador solicita recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro, então ligado ao Banco Master, para financiar a produção do filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro. O próprio Flávio confirmou ter buscado patrocínio privado para o projeto após a divulgação dos áudios.
O caso ampliou o debate político em torno das relações entre lideranças nacionais do PL e personagens envolvidos no escândalo do Banco Master, investigação que continua produzindo desdobramentos no cenário político brasileiro.
Além disso, Flávio Bolsonaro segue convivendo com o desgaste político decorrente das investigações sobre o caso das chamadas "rachadinhas", tema que acompanha sua trajetória pública há anos e que permanece presente no debate político nacional.
Tudo isso cria uma pergunta inevitável para Sergio Moro: como conciliar o discurso permanente de combate à corrupção com alianças políticas que também são alvo de questionamentos públicos?
A eleição de 2026 tende a ser menos uma disputa entre direita e esquerda e mais uma comparação entre gestão e discurso.
De um lado estará um grupo político que apresentará obras, investimentos, programas educacionais como o Ganhando o Mundo, crescimento econômico e resultados administrativos. Do outro, um candidato que ainda precisa demonstrar ao eleitorado que possui algo além de uma narrativa nacional construída em torno da Lava Jato.
O desafio de Sergio Moro não é convencer os paranaenses de que é contra a corrupção. Isso todos já sabem e qualquer candidato, em em seu juizo normal, vai afirmar que é contra a corrupção.
O desafio é mostrar que tem um projeto para governar o Paraná.
Até agora, essa continua sendo a pergunta sem resposta.
