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O palhaço que fez Curitiba sorrir agora pede ajuda para sobreviver

Por trás da maquiagem está Carlos Roberto Teles, um artista cuja história de vida é muito maior do que as brincadeiras...

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Redação24/08/2026
O palhaço que fez Curitiba sorrir agora pede ajuda para sobreviver

Foto: Renan Gabriel Ribeiro, @imaugenblick_foto

Durante décadas, quem passou pela Rua XV de Novembro, em Curitiba, provavelmente cruzou com uma figura impossível de ignorar: o rosto pintado de branco, a roupa de palhaço e a disposição para brincar com quem atravessava o calçadão. Era o Chameguinho. Ou, para muitos curitibanos, simplesmente o Sombra da XV.

Por trás da maquiagem está Carlos Roberto Teles, um artista cuja história de vida é muito maior do que as brincadeiras que protagonizou nas ruas da capital. E agora, depois de décadas fazendo os outros sorrirem, ele volta às redes sociais para pedir ajuda. Segundo o próprio artista, está doente, sem condições de trabalhar como antes e enfrentando dificuldades para manter a família.

É um daqueles momentos em que Curitiba é obrigada a olhar para uma de suas próprias memórias — não como folclore, mas como gente.

A história do Chameguinho começou muito antes de ele se tornar personagem conhecido na Rua XV. Segundo reportagem publicada pela Gazeta do Povo, Teles saiu de casa ainda criança, depois de sofrer agressões e passar fome. Viveu nas ruas, enfrentou drogas e chegou a São Paulo, onde acabou tendo contato com o teatro. De volta a Curitiba, transformou a própria experiência em sobrevivência através da arte.

Foi assim que nasceu o Sombra.

Com um lápis e uma pomada Minancora, ele improvisou a maquiagem branca e começou a fazer apresentações na Rua XV. A rua virou palco, trabalho e, sobretudo, uma possibilidade de reconstruir a própria vida. A renda obtida com as apresentações chegou a ajudar a própria mãe, e posteriormente Teles também criou projetos sociais e passou a visitar escolas, hospitais e outras instituições.

A cidade viu crescer o personagem, mas talvez nunca tenha compreendido completamente o tamanho da batalha do homem que estava por trás dele.

Em 2019, quando completou 31 anos de carreira, Chameguinho dizia que seu trabalho sustentava a família e que, apesar de trabalhar por necessidade, fazia aquilo por amor. Defendia a arte de rua como uma cultura acessível a todos e continuava encontrando na Rua XV seu palco preferencial.

A UFPR também registrou a importância do personagem em um programa dedicado aos artistas de rua de Curitiba. O episódio tratou Chameguinho como uma personalidade permanente da Rua XV e mostrou como viver da arte nas ruas sempre foi um desafio. A trajetória chegou a incluir um protesto dramático em que o artista permaneceu acorrentado durante mais de 20 dias, em reação a uma mudança nas regras municipais para os artistas do calçadão.

Mas foi a pandemia que mostrou de maneira brutal uma verdade que continua atual: quando o palco desaparece, desaparece também a renda.

Em 2020, sem poder trabalhar na Rua XV, Chameguinho perdeu praticamente sua principal fonte de sustento. A Prefeitura de Curitiba registrou que ele passou a trabalhar como cuidador na FAS, atendendo pessoas com deficiências físicas e intelectuais. O próprio artista contou que, antes da pandemia, chegava a receber entre R$ 200 e R$ 300 por dia passando o chapéu. De uma hora para outra, ficou sem renda.

Naquele momento, a situação da família era tão difícil que ele chegou a pedir alimentos pelas redes sociais. O pedido acabou chamando a atenção da FAS, que o orientou a participar de um processo seletivo e possibilitou o trabalho formal como cuidador.

Também naquela época, quando ainda tinha filhas pequenas, Chameguinho já havia feito um desabafo que explicava sua realidade melhor do que qualquer estatística: era doloroso ver uma filha pedir pão e não ter dinheiro para comprar.

Mais de seis anos depois, a história parece dar uma volta inquietante.

Agora, segundo o próprio Chameguinho, a doença voltou a colocar limites sobre aquilo que durante décadas foi sua principal ferramenta de sobrevivência: o trabalho. Sem recursos suficientes para manter a família, ele novamente recorre à solidariedade de quem conheceu seu personagem, recebeu suas brincadeiras ou simplesmente passou pela Rua XV e teve o dia interrompido por alguns segundos de alegria.

Há algo de profundamente simbólico nisso.

O homem que passou uma vida inteira pedindo alguns trocados para fazer Curitiba rir agora precisa pedir ajuda para continuar vivendo.

E talvez essa seja uma boa oportunidade para a cidade lembrar que os personagens da Rua XV não são parte da paisagem urbana. São trabalhadores. São artistas. São pessoas que envelhecem, adoecem, têm filhos, contas, limitações e problemas como qualquer outro cidadão.

Chameguinho ajudou a construir uma parte da identidade popular da Curitiba que não aparece nos cartões-postais. Uma Curitiba feita de artistas de rua, vendedores, músicos, personagens, gente simples e histórias que dão personalidade ao calçadão.

A maquiagem pode esconder o rosto. Não consegue esconder a vida.

Durante anos, o Sombra da XV ficou parado diante de estranhos, imitando gestos, arrancando risadas e passando o chapéu. Muitas vezes recebeu algumas moedas. Outras vezes, provavelmente, recebeu apenas um sorriso ou uma fotografia.

Agora é ele quem está com a mão estendida.

Não para pedir aplausos.

Para pedir ajuda.

E talvez Curitiba, que tantas vezes parou para assistir ao Chameguinho, possa agora parar novamente — desta vez para olhar para Carlos Roberto Teles, o homem por trás do palhaço.

Porque uma cidade também se mede pela maneira como trata aqueles que ajudaram a fazê-la mais humana.

E seria uma ironia triste demais que o Sombra da XV, depois de tantos anos iluminando a Rua das Flores, acabasse esquecido justamente quando é ele quem precisa de um pouco de luz.