Há derrotas que são apenas numéricas. Outras carregam um simbolismo muito maior. A decisão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa do Paraná de manter a punição aplicada pelo Conselho de Ética ao deputado Renato Freitas é uma dessas derrotas que falam por si.
Não se trata apenas da manutenção de uma sanção disciplinar. O que a CCJ deixou claro é que a maioria da Assembleia já não compra a narrativa de que todo embate envolvendo o parlamentar é fruto de perseguição política. O discurso que mobiliza as redes sociais parece perder força quando chega ao plenário da política real.
Renato Freitas construiu sua carreira apostando no enfrentamento. É um estilo legítimo de atuação parlamentar. O problema começa quando o confronto deixa de ser instrumento para defender ideias e passa a se tornar um fim em si mesmo.
Nesse momento, o mandato deixa de produzir consensos, perde capacidade de articulação e passa a colecionar crises. Foi exatamente isso que a CCJ sinalizou.
Ao rejeitar os recursos apresentados pela defesa do deputado, a comissão não apenas confirmou a regularidade do processo conduzido pelo Conselho de Ética. Politicamente, enviou um recado muito mais contundente: há uma maioria consolidada dentro da Assembleia que entende que Renato Freitas ultrapassou os limites do debate político e passou a gerar conflitos institucionais recorrentes.
É significativo observar que esta não é a primeira vez que o parlamentar se vê no centro de controvérsias disciplinares. Ao longo do mandato, episódios de confronto passaram a ocupar mais espaço no noticiário do que a própria produção legislativa. Para parte da militância, isso representa coragem. Para muitos deputados, representa desgaste institucional.
E política, antes de qualquer outra coisa, é a arte de construir maioria.
Renato Freitas parece ter escolhido outro caminho: o da polarização permanente. Funciona para manter engajada uma parcela fiel de seus apoiadores, mas produz um efeito colateral inevitável: o isolamento dentro do Parlamento.
É justamente esse isolamento que ficou evidente na votação da CCJ.
Enquanto o deputado insiste em transformar cada derrota em combustível para um novo embate, seus adversários avançam sem grandes dificuldades.
O processo agora seguirá para o plenário, onde a tendência política é de confirmação da punição. Reverter esse cenário exigiria uma capacidade de articulação que, até aqui, o parlamentar não demonstrou possuir.
Há ainda um aspecto eleitoral que merece atenção. Em um momento em que a oposição ao governo Ratinho Junior busca ampliar seu espaço político para 2026, casos como esse desviam completamente o foco do debate. Em vez de discutir projetos, economia, infraestrutura, segurança ou desenvolvimento do Paraná, a pauta passa a ser o comportamento de um único deputado.
No fim, quem perde não é apenas Renato Freitas. A própria oposição acaba refém de uma agenda baseada em conflitos sucessivos, enquanto o governo mantém a vantagem de pautar temas administrativos e entregas concretas.
A política costuma ser implacável com quem confunde visibilidade com influência. Renato Freitas continua sendo um dos deputados mais conhecidos do Paraná. Mas notoriedade não é sinônimo de liderança.
A decisão da CCJ expõe justamente essa diferença.
Ter milhões de visualizações nas redes sociais pode render manchetes. Construir maioria dentro de um Parlamento exige algo muito mais difícil: diálogo, articulação e capacidade de convencer.
Neste momento, Renato Freitas parece ter muito da primeira e cada vez menos da segunda.
