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Debate eleitoral: quando o confronto de ideias perde espaço para o algoritmo

A eleição presidencial de 1989 talvez seja o exemplo mais emblemático. Naquele retorno das eleições diretas para ...

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Redação27/08/2026
Debate eleitoral: quando o confronto de ideias perde espaço para o algoritmo

Durante décadas, debate eleitoral na televisão foi sinônimo de acontecimento político.

Era o momento em que candidatos, diante das câmeras e de milhões de brasileiros, precisavam abandonar o discurso preparado para o programa eleitoral e encarar o adversário. Perguntas eram feitas, respostas eram cobradas, contradições apareciam e, vez ou outra, uma frase ou um confronto acabava entrando para a história.

A eleição presidencial de 1989 talvez seja o exemplo mais emblemático. Naquele retorno das eleições diretas para presidente, os debates ganharam enorme importância. No segundo turno, Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva participaram de dois confrontos transmitidos por um pool de emissoras, em 3 e 14 de dezembro, das 21h30 à meia-noite.

Era outra televisão. Outro país. Outra relação entre candidato, imprensa e eleitor.

Hoje, entretanto, o debate eleitoral enfrenta um concorrente poderoso: o algoritmo.

O candidato já não precisa da televisão para chegar ao eleitor

As redes sociais mudaram completamente a lógica da comunicação política.

Um candidato pode gravar um vídeo de 30 segundos, escolher a frase mais impactante, eliminar a pergunta incômoda, editar a resposta, colocar uma música, impulsionar o conteúdo e atingir milhões de pessoas.

Não precisa esperar o horário do debate. Não precisa dividir o palco com adversários. Não precisa responder a uma pergunta inesperada.

E, principalmente, não precisa deixar o algoritmo distribuir para o eleitor aquilo que ele não gostaria que fosse visto.

Essa talvez seja a maior transformação da comunicação eleitoral contemporânea.

  • O debate é imprevisível / A rede social é controlável.
  • No debate, o candidato recebe a pergunta / Na internet, ele escolhe a pergunta que quer responder.
  • No debate, o adversário está a poucos metros / Na rede social, o adversário pode ser transformado em um corte de 15 segundos.

É uma diferença gigantesca.

E existe um problema que ninguém gosta de admitir

Os debates, muitas vezes, acontecem em horários pouco amigáveis para o eleitor.

À noite, frequentemente depois das 22 horas, quando uma parcela significativa da população já está cansada, dormindo ou simplesmente ocupada com outras atividades.

A audiência pode ser pequena diante do alcance potencial de uma publicação nas redes sociais.

Para uma campanha, portanto, surge uma pergunta bastante objetiva:

  • por que colocar o candidato diante de uma audiência limitada e de adversários preparados para atacá-lo se é possível produzir conteúdo próprio e distribuí-lo diretamente ao eleitor?

Do ponto de vista puramente eleitoral, a estratégia faz algum sentido.

Do ponto de vista democrático, porém, ela produz uma perda.

Porque o eleitor passa a receber muito mais propaganda sobre o candidato do que respostas do candidato.

E são coisas diferentes.

O debate é justamente aquilo que a rede social não consegue reproduzir

Uma publicação pode ser perfeita. Um vídeo pode ser impecavelmente editado. Uma frase pode viralizar.

Mas nada disso substitui completamente o confronto.

Porque a política não é apenas aquilo que um candidato quer dizer. É também aquilo que ele precisa responder.

Essa é a essência de um debate.

  • Se um candidato promete uma obra, o adversário pode perguntar de onde virá o dinheiro.
  • Se promete reduzir impostos, alguém pode questionar o impacto nas contas públicas.
  • Se critica uma privatização, pode ser obrigado a explicar o que fará com a empresa.
  • Se promete aumentar investimentos em segurança, pode ser questionado sobre orçamento, efetivo e resultados.

É no confronto que a proposta deixa de ser slogan e começa a ser examinada.

O problema de 2026

A campanha eleitoral de 2026 está oferecendo um exemplo bastante claro dessa mudança.

No Paraná, o primeiro debate da Band, realizado em 9 de agosto, ocorreu sem Sergio Moro. Sandro Alex e Requião Filho acabaram concentrando o confronto entre si, com troca de críticas sobre alianças, infraestrutura, educação, segurança e privatização da Copel.

O episódio poderia ter sido apenas uma ausência. Mas não foi.

A ausência virou assunto. E esse é o paradoxo.

Quem não participa do debate pode até evitar o confronto naquele momento, mas não necessariamente evita o confronto político.

Às vezes, consegue exatamente o contrário. Transforma a própria ausência em pauta.

Foi o que voltou a acontecer agora.

O caso TMC/Universidade Positivo

O debate promovido pela TMC Paraná em parceria com a Universidade Positivo tinha uma proposta ainda mais interessante: colocar frente a frente os três principais candidatos convidados, Sergio Moro, Sandro Alex e Requião Filho.

As campanhas haviam participado da preparação, concordado com as regras e recebido as credenciais. Moro, entretanto, comunicou a desistência às 15h51 do dia do debate. Pouco depois, Sandro Alex também anunciou que não participaria.

O resultado foi praticamente simbólico.

Das três cadeiras destinadas aos candidatos, apenas uma foi ocupada.

Requião Filho compareceu. Moro não foi. Sandro também não.

O que deveria ser um debate acabou transformado em uma sabatina individual com Requião Filho.

E aqui está uma das maiores ironias da história.

Moro, que lidera as pesquisas, não quis dividir o palco com os adversários.

Depois da ausência de Moro, Sandro também preferiu não dividir o palco com Requião.

No final, o eleitor perdeu justamente aquilo que um debate deveria oferecer: o confronto simultâneo das ideias dos candidatos que disputam a preferência do eleitorado.

Fugir do debate resolve o problema?

Politicamente, pode resolver. Eleitoralmente, talvez. Mas também pode criar outro problema.

O candidato que está atrás nas pesquisas pode utilizar a ausência do adversário como munição.

E utiliza.

É aí que aparecem os rótulos: "fujão", "medroso", "não quer enfrentar perguntas", "está com medo", entre outros.

São ataques políticos, evidentemente.

Não significam necessariamente que o candidato tenha medo.

Mas existe uma consequência objetiva: a ausência passa a ser uma narrativa que o adversário pode explorar.

E isso vale para todos. Hoje pode ser Moro. Amanhã pode ser Sandro. Depois pode ser Requião.

Quem transforma a ausência em estratégia precisa aceitar que o adversário também poderá transformar essa ausência em propaganda contra ele.

Quem está na frente tem ainda mais responsabilidade

Existe, entretanto, uma questão específica para quem lidera as pesquisas.

O argumento de que o líder não precisa do debate porque já possui vantagem pode parecer racional do ponto de vista eleitoral.

Mas é justamente o líder quem deveria ter mais interesse em demonstrar por que está liderando.

Pesquisa não é eleição. Pesquisa é fotografia.

E a própria Quaest divulgada nesta semana mostra que, apesar da liderança de Moro com 37% na estimulada, Requião Filho aparece com 21% e Sandro Alex com 15%. Na espontânea, Moro tem 13%, Requião 7% e Sandro 4%, enquanto 73% dos entrevistados não apontaram candidato.

Ou seja: ainda existe muita gente para convencer. O eleitor que ainda não decidiu não precisa apenas de propaganda.

Precisa de informação. Precisa comparar. Precisa ouvir. Precisa confrontar.

E precisa, sobretudo, descobrir como cada candidato reage quando alguém discorda dele.

Mas também é preciso olhar o outro lado

Seria simplista transformar toda ausência em covardia política.

Há debates mal organizados. Há regras questionáveis.

Há eventos que oferecem pouco espaço para propostas e muito espaço para provocação.

Há candidatos que podem considerar que determinado formato não acrescenta nada à campanha.

E existe uma estratégia eleitoral legítima de escolher onde e quando aparecer.

O problema começa quando essa estratégia vira regra.

Porque, se todos os candidatos adotarem a mesma lógica, o debate desaparece.

E o eleitor fica condenado a assistir a uma sucessão de vídeos cuidadosamente editados, nos quais cada candidato sempre parece ter a melhor resposta, a melhor proposta e a razão absoluta.

Isso não é confronto.

É comunicação unilateral.

O algoritmo não pergunta de volta

Talvez essa seja a melhor maneira de entender a diferença.

  • O algoritmo entrega ao eleitor aquilo que a campanha quer mostrar.

O debate mostra também aquilo que a campanha preferia esconder.

É por isso que o debate continua importante em 2026.

Não porque a televisão ainda tenha o monopólio da informação — não tem.

Não porque todos os eleitores assistam — não assistem.

E nem porque um debate necessariamente muda uma eleição — muitas vezes não muda.

Mas porque ele preserva algo que a política digital vem perdendo:

a possibilidade de uma pergunta sem roteiro e de uma resposta sem edição.

O futuro provavelmente será híbrido

Os debates não vão desaparecer mas, provavelmente, precisarão mudar.

Precisam estar onde o eleitor está - televisão, YouTube, Instagram, TikTok, Facebook, podcasts, plataformas de streaming.

O debate pode continuar acontecendo na televisão, mas precisa ser pensado para circular também nas redes.

Cada resposta pode virar conteúdo. Cada confronto pode gerar cortes. Cada proposta pode ser posteriormente analisada.

O que não pode acontecer é a política aceitar que o confronto de ideias seja substituído integralmente pela comunicação controlada das campanhas.

Porque uma eleição não deveria ser apenas uma disputa para descobrir quem produz o melhor vídeo.

Deveria ser também uma oportunidade para descobrir quem consegue sustentar suas ideias quando alguém está sentado à sua frente dizendo exatamente o contrário.

E talvez essa seja a grande pergunta que os candidatos de 2026 estejam deixando para o eleitor:

se eles querem governar para todos, por que alguns parecem tão pouco dispostos a conversar — e principalmente a confrontar — com quem pensa diferente?

Debate não é espetáculo. Não é favor à emissora. Não é favor ao adversário. É uma prestação de contas antecipada.

E, quando um candidato aceita disputar uma eleição, talvez seja razoável esperar que aceite também disputar ideias.

Porque nas redes sociais é possível escolher o que o eleitor vê.

No debate, é preciso descobrir o que o candidato tem a dizer quando não pode escolher a pergunta.