Há problemas urbanos que uma cidade aprende a considerar normais simplesmente porque convivem com eles há tempo demais. Em Curitiba, um deles tem apito, vagão, cruzamento fechado e quase meio milhão de pessoas obrigadas a dividir seu cotidiano com uma ferrovia que atravessa áreas densamente povoadas.
Agora, esse velho problema começa a ganhar uma possibilidade concreta de solução.
A Justiça Federal deu mais um passo na ação que busca retirar os trens de carga das áreas urbanas de Curitiba, Almirante Tamandaré, Itaperuçu e Rio Branco do Sul. A ação foi proposta pelo Governo do Paraná e envolve União, ANTT e Rumo Malha Sul. A decisão também incluiu os municípios e o Ministério Público Federal na discussão.
Mas, para Curitiba, há uma questão política que merece ser destacada: Eduardo Pimentel decidiu comprar essa briga.
Uma cidade não pode continuar sendo cortada ao meio
Os números são difíceis de ignorar.
A ferrovia atravessa 21 bairros de Curitiba, possui 51 cruzamentos em nível e interfere diretamente na vida de aproximadamente 467 mil moradores. Entre 2004 e 2025, foram registradas 437 ocorrências envolvendo trens na capital — o maior número de acidentes ferroviários entre as cidades brasileiras.
Não estamos falando, portanto, de uma discussão meramente estética.
Não é simplesmente uma questão de "tirar os trilhos porque ficam feios". É segurança. É mobilidade. É trânsito. É planejamento urbano. É qualidade de vida.
E, principalmente, é decidir se uma cidade do tamanho e da importância de Curitiba continuará subordinando seu desenvolvimento urbano a uma estrutura ferroviária implantada quando a realidade da cidade era completamente diferente.
Pimentel percebeu que a oportunidade era agora
A discussão ganhou ainda mais importância porque a concessão da Malha Sul está chegando ao fim. O contrato atual tem término previsto para fevereiro de 2027, enquanto a nova concessão poderá se estender por 30 anos.
Ou seja: se Curitiba não resolver essa questão agora, poderá ficar presa aos trilhos por mais uma geração.
Foi nesse cenário que Eduardo Pimentel passou a colocar a retirada da ferrovia como uma das bandeiras de infraestrutura da sua administração.
E isso merece ser reconhecido.
Prefeito nenhum consegue, sozinho, retirar 45 quilômetros de ferrovia de uma região metropolitana. A questão depende de União, ANTT, concessionária, Governo do Estado, Justiça e investimentos de grande porte.
Mas alguém precisava colocar Curitiba no centro dessa discussão.
Pimentel fez isso.
A velha política de empurrar o problema para depois não serve mais
Durante décadas, a solução foi adiada.
Cada governo tinha uma justificativa. Cada concessionária tinha uma dificuldade. Cada discussão terminava em estudos, promessas e reuniões.
Enquanto isso, o trem continuava passando.
Passava de madrugada. Passava durante o dia. Interrompia o trânsito. Cruzava bairros. Produzia ruído. Dividia regiões da cidade.
E Curitiba continuava convivendo com uma infraestrutura que já não combina com sua realidade urbana.
A nova concessão cria uma espécie de última janela de oportunidade.
A ANTT prorrogou até 30 de setembro o prazo para contribuições à audiência pública que discute a nova concessão da Malha Sul, que prevê investimentos estimados em R$ 53 bilhões em aproximadamente 4.248 quilômetros de ferrovias.
É exatamente nesse momento que a pressão política precisa acontecer.
O trem que pode sair e o futuro que pode entrar
A grande questão, porém, não é apenas retirar os trens.
É saber o que Curitiba fará depois. Porque aquele corredor ferroviário não precisa se transformar simplesmente em um vazio urbano.
Pode representar uma oportunidade extraordinária para criar novas ligações viárias, espaços de convivência, ciclovias, áreas verdes e novas alternativas de transporte.
Uma barreira que durante décadas separou bairros pode, finalmente, servir para aproximá-los.
E aí está a dimensão histórica dessa discussão.
Não se trata apenas de retirar uma ferrovia. Trata-se de devolver uma parte da cidade aos curitibanos.
Pimentel tem uma batalha importante pela frente
É preciso reconhecer também que a decisão judicial de agora não significa que os trens deixarão Curitiba amanhã.
Ainda existe um longo caminho jurídico, administrativo, técnico e financeiro.
Mas há uma diferença importante: a discussão saiu do campo das reclamações e entrou no campo das decisões.
E Eduardo Pimentel tem papel relevante nisso.
Se conseguir transformar a pressão política em uma exigência efetivamente incorporada à nova concessão ferroviária, poderá deixar uma das marcas mais importantes de sua administração.
Prefeitos inauguram viadutos, asfaltam ruas, entregam parques e anunciam obras.
Mas há obras que são maiores do que uma inauguração.
Tirar os trens de carga do meio de Curitiba seria uma dessas.
Porque, depois de décadas convivendo com o problema, talvez finalmente esteja chegando a hora de Curitiba ouvir menos o apito do trem e mais o barulho de uma cidade que voltou a crescer sem precisar desviar seu futuro dos trilhos.
Eduardo Pimentel comprou essa briga. Agora, precisa garantir que ela não termine em mais uma promessa ferroviária.
