Curitiba construiu uma reputação internacional graças ao sistema de transporte coletivo implantado na década de 1970. O BRT foi revolucionário, inspirou cidades ao redor do mundo e colocou a capital paranaense como referência em planejamento urbano.
Mas nenhuma inovação permanece inovadora para sempre.
Cinquenta anos depois, a cidade enfrenta uma realidade completamente diferente daquela que deu origem ao sistema. A população cresceu, a Região Metropolitana se expandiu, o número de veículos praticamente explodiu e os deslocamentos se tornaram mais longos e complexos. Ainda assim, a principal resposta do poder público continua sendo a mesma: ampliar ou reformar corredores de ônibus.
O estudo divulgado pelo BNDES e pelo Ministério das Cidades mostra que talvez tenha chegado o momento de Curitiba admitir aquilo que há muito tempo evita discutir. Segundo o levantamento, a combinação entre metrô, VLT e novos corredores de BRT poderia ampliar significativamente a rede de transporte de média e alta capacidade da Região Metropolitana, reduzindo em cerca de 24% o tempo de viagem dos passageiros.
Não se trata de abandonar os ônibus, mas de reconhecer que eles, sozinhos, já não conseguem atender às necessidades de uma metrópole com quase quatro milhões de habitantes.

A insistência em tratar o BRT como solução para todos os problemas revela uma dificuldade histórica da administração municipal: olhar para além do modelo que projetou Curitiba internacionalmente.
O mérito do passado é inquestionável. O problema é transformar esse mérito em um obstáculo para pensar o futuro.
Enquanto cidades brasileiras passaram a investir em metrôs, trens urbanos e veículos leves sobre trilhos, Curitiba permaneceu presa à ideia de que bastaria aperfeiçoar o sistema existente. Melhoraram-se estações, renovaram-se ônibus e criaram-se novos corredores, mas a estrutura básica permaneceu praticamente a mesma.
É claro que o ônibus continuará sendo parte essencial da mobilidade urbana. Nenhuma grande cidade do mundo funciona sem ele. A questão é outra: será que ele deve continuar sendo praticamente a única aposta para os grandes deslocamentos metropolitanos?
O estudo do BNDES sugere que não.
Os técnicos propõem uma rede integrada, em que cada modal desempenha a função para a qual é mais eficiente. O metrô absorveria os corredores de maior demanda. O VLT atenderia eixos intermediários. O BRT faria a integração com bairros e municípios vizinhos.
É um modelo adotado em diversas cidades que compreenderam que mobilidade eficiente depende da combinação de diferentes sistemas, e não da exclusividade de um único modal.

O curioso é que Curitiba, durante décadas, ensinou o mundo a inovar em transporte coletivo. Hoje, corre o risco de ficar conhecida justamente pela resistência em inovar novamente.
Durante diferentes gestões municipais, o metrô foi anunciado, estudado, redesenhado e, por fim, arquivado. A cada nova administração surgem argumentos diferentes para justificar o adiamento, enquanto o cidadão continua enfrentando viagens demoradas, veículos lotados e uma integração cada vez mais pressionada pelo crescimento da região metropolitana.
Não é razoável imaginar que uma cidade que pretende crescer economicamente continue apostando apenas em soluções concebidas para uma realidade urbana dos anos 1970.
Curitiba precisa decidir se quer preservar apenas um legado ou construir um novo.
O BRT continuará sendo motivo de orgulho. Isso não está em discussão. O que está em jogo é a capacidade de reconhecer que o sucesso de ontem não resolve, necessariamente, os desafios de amanhã.
Planejar o futuro nunca significou repetir o passado. Foi justamente essa visão que fez Curitiba se destacar décadas atrás. Talvez tenha chegado a hora de recuperar esse espírito inovador e aceitar que o próximo salto da mobilidade urbana passa, inevitavelmente, pelos trilhos.
