Durante anos, Brasília assistiu à construção de uma narrativa em que determinadas autoridades passaram a ocupar o papel de paladinos da democracia, da Justiça e das instituições.
- Agora, a realidade cobra coerência.
Não basta dizer que tudo é ataque político. Não basta apontar para a oposição. Não basta transformar qualquer questionamento em ameaça às instituições.
Instituições fortes não têm medo de investigação.
E, neste momento, o que o país precisa é exatamente disso: investigação, transparência e respostas.
O relatório da PF também menciona um contrato de aproximadamente R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório da esposa de Moraes, além de outra proposta envolvendo ativos ligados a aeronaves. As informações, isoladamente, não comprovam crime ou favorecimento, mas tornam ainda mais necessária a explicação pública sobre a natureza dessas relações.
PALADINOS DA JUSTIÇA JÁ NÃO O SÃO MAIS?
Essa talvez seja a pergunta mais incômoda de todas.
Não porque qualquer autoridade deva ser considerada culpada antes de uma investigação. Ao contrário: é justamente porque ninguém está acima da lei que as autoridades também precisam se submeter ao escrutínio que aplicam aos demais.
O problema aumenta quando o próprio ministro André Mendonça determina o aprofundamento das apurações envolvendo Moraes, enquanto a PF manifesta desconforto com a forma como a diligência foi determinada.
O procurador-geral Paulo Gonet, por sua vez, pediu a nulidade do relatório, alegando que Mendonça teria ultrapassado os limites de sua competência ao determinar determinadas providências sem provocação do Ministério Público ou da própria PF.
E temos, então, uma situação quase surreal:
um ministro do STF aparece nas mensagens investigadas; outro ministro determina providências sobre essas mensagens; a Polícia Federal questiona a forma da determinação; e o procurador-geral da República, também citado no material, pede a anulação do relatório.
É difícil imaginar cenário mais delicado para a credibilidade institucional da República.
E O SENADO?
Do outro lado, a oposição já fala novamente em impeachment de Moraes.
Existem, segundo o Partido Novo, 53 pedidos de afastamento contra o ministro no Senado. Parlamentares oposicionistas aumentaram a pressão após as novas revelações. Mas a própria oposição reconhece que, sob a presidência de Davi Alcolumbre, as chances de abertura do processo continuam praticamente inexistentes.
E aqui aparece outra contradição de Brasília.
Quando o Congresso deixa pedidos de impeachment indefinidamente engavetados, também alimenta a percepção de que existem autoridades intocáveis.
Não se trata de defender impeachment. Trata-se de defender que qualquer pedido fundamentado seja analisado dentro das regras institucionais, e não transformado em instrumento de barganha política ou simplesmente escondido numa gaveta.
A REPÚBLICA NÃO PODE TER DONOS
O episódio do Banco Master ultrapassou a disputa entre esquerda e direita.
- Ultrapassou Moraes.
- Ultrapassou Bolsonaro.
- Ultrapassou o Senado.
O que está em jogo agora é algo maior: a confiança do cidadão de que as instituições funcionam para todos da mesma maneira.
Durante muito tempo, Brasília ensinou ao brasileiro que instituições deveriam ser respeitadas.
Correto.
Mas existe uma segunda parte dessa lição que não pode ser esquecida:
instituições também precisam respeitar os limites que impõem aos outros.
Se as mensagens forem esclarecidas e não houver irregularidade, que se prove isso.
Se houver explicações legítimas para os contatos, que sejam apresentadas.
Se houver abuso, tráfico de influência ou conflito de interesses, que seja apurado e responsabilizado.
O que não pode acontecer é o velho roteiro brasileiro: quando a suspeita atinge o adversário, exige-se investigação até o fim; quando chega perto dos próprios aliados, fala-se em perseguição, nulidade ou ataque às instituições.
Essa lógica precisa acabar.
Porque, se as máscaras realmente começaram a cair em Brasília, não será suficiente trocar os personagens. Será preciso mudar a lógica de poder.
A República não pode ter paladinos. Não pode ter intocáveis. E muito menos pode ter donos.
