Poucas vezes uma ideia aparentemente tão boa gerou tantas dúvidas logo no seu nascimento.
A prefeita Elizabeth Schmidt anunciou a criação da Secretaria Municipal de Prevenção e Combate à Corrupção, iniciativa defendida há meses pelo senador Sergio Moro e apresentada como um marco de transparência para Ponta Grossa. A proposta recebeu apoio entusiasmado de Moro, Deltan Dallagnol e Filipe Barros, que enxergam no projeto um modelo nacional de fiscalização pública.
Mas a pergunta que circula nos corredores da política ponta-grossense é outra:
Sergio Moro está agindo como aliado ou como adversário da prefeita?
Porque, se a nova secretaria realmente funcionar como prometido, talvez o primeiro endereço a ser visitado não seja a oposição, mas a própria administração municipal.
E aí, a ironia é inevitável.
Enquanto a população espera respostas sobre problemas que dominam o debate público nos últimos meses — merenda escolar, contratos questionados, CPI da Clinicão, compras públicas contestadas e casos que chegaram aos órgãos de controle — surge uma nova estrutura, cuja missão oficial será justamente fiscalizar contratos, gastos e atos administrativos.
Convenhamos: trabalho não vai faltar.
Aliás, se a secretaria cumprir rigorosamente sua função, dificilmente seus servidores precisarão sair do Paço Municipal para encontrar assuntos relevantes.
Outro detalhe chamou atenção nos bastidores. Comentou-se na cidade que Rodrigo Schmidt, filho da prefeita Elizabeth, chegou a ser citado como possível nome para assumir a nova estrutura. Se isso realmente acontecer, será uma inovação institucional difícil de explicar: uma secretaria criada para fiscalizar o governo sendo comandada por alguém diretamente ligado ao núcleo político da própria administração. Parece que essa possibilidade está descartada.
Seria uma espécie de "autofiscalização familiar".
Nada contra confiança. Mas transparência normalmente funciona melhor quando acompanhada de independência.
O discurso oficial fala em prevenção da corrupção. Ótimo.
Mas a população de Ponta Grossa parece estar preocupada com questões mais concretas e imediatas: filas na saúde, qualidade dos serviços públicos, problemas administrativos, contratos questionados, segurança e gestão eficiente dos recursos públicos.
Ou alguém realmente acredita que o cidadão comum acorda pensando: "o que está faltando nesta cidade é mais uma secretaria"?
A pergunta central continua sem resposta.
A nova estrutura será um órgão técnico, independente e disposto a examinar tudo e todos?
Ou será apenas mais uma repartição produzindo relatórios, discursos e vídeos institucionais sobre transparência?
Há ainda um aspecto político curioso.
Moro construiu sua carreira defendendo que não existe combate à corrupção seletivo. A regra vale para aliados e adversários.
Se ele realmente acredita nisso, talvez tenha entregado à prefeita Elizabeth um dos presentes políticos mais perigosos de sua gestão.
Porque uma secretaria anticorrupção de verdade, não escolhe onde investigar.
E se ela fizer exatamente aquilo que seus criadores prometeram, a primeira pergunta poderá ser justamente esta:
Quem será fiscalizado primeiro?
Dependendo da resposta, Sergio Moro poderá descobrir que criou muito mais um problema para seus aliados do que uma solução para sua narrativa política.
E aí ficará a dúvida que hoje domina as conversas em Ponta Grossa:
A nova secretaria que chega com o nome pomposo de Secretaria Municipal de Prevenção e Combate a Corrupçãofoi criada para investigar a corrupção de verdade ou só de mentirinha?
