NARRATIVA.política, poder e versão

A pesquisa é uma fotografia. Mas uma fotografia não é o filme inteiro

Quem quiser transformar a pesquisa de hoje no resultado de outubro está fazendo política com estatística, e confundindo fotografia com realidade.

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Redação25/08/2026
A pesquisa é uma fotografia.  Mas uma fotografia não é o filme inteiro

Reprodução RPC

Há alguma coisa estranha acontecendo com as pesquisas eleitorais no Paraná. E não é necessariamente porque algum instituto esteja errado. O problema está, muitas vezes, na maneira como os números são apresentados, interpretados e, principalmente, consumidos pelo eleitor.

Nas últimas semanas, diferentes levantamentos produziram fotografias bastante diferentes da mesma eleição. E, nesta segunda-feira (24), duas pesquisas divulgadas praticamente ao mesmo tempo — Alfa Inteligência e Quaest — deram mais combustível para a confusão.

Na pesquisa Alfa, Sergio Moro aparece com 38%, Sandro Alex com 26% e Requião Filho com 20% no cenário estimulado. Já a Quaest encontrou Moro com 37%, Requião Filho com 21% e Sandro Alex com 15%. Ou seja: Moro permanece na liderança nos dois levantamentos, mas a disputa pelo segundo lugar muda completamente de fotografia.

E é justamente aí que começa a parte mais interessante — e menos divulgada — das pesquisas.

Estimulada não é espontânea

Existe uma diferença fundamental entre os dois tipos de pergunta que costuma desaparecer nas manchetes.

Na pesquisa estimulada, o entrevistador apresenta ao eleitor uma relação de nomes e pergunta em quem ele votaria. O eleitor não precisa necessariamente lembrar dos candidatos: basta reconhecer ou escolher um dos nomes apresentados.

Na pesquisa espontânea, ocorre justamente o contrário. Nenhum nome é apresentado. A pergunta é simplesmente: em quem você pretende votar?

A diferença é enorme.

Na Quaest, por exemplo, Moro aparece com 37% na estimulada. Requião Filho tem 21% e Sandro Alex, 15%. Até aí, a manchete está pronta.

Mas, quando os nomes desaparecem do questionário, a fotografia muda radicalmente: Moro cai para 13%, Requião Filho fica com 7% e Sandro Alex com 4%. E o dado que deveria estar no centro da discussão aparece quase como nota de rodapé: 73% dos eleitores não sabem ou ainda não definiram em quem votar.

S e t e n t a  e  t r ê s  p o r   c e n t o. 

É um número gigantesco.

E ele diz algo muito mais importante sobre o estágio atual da eleição do que simplesmente afirmar que determinado candidato tem 37%, 21% ou 15%.

Significa que, quando o eleitor precisa produzir espontaneamente um nome, sem receber uma lista para escolher, quase três em cada quatro ainda não conseguem apontar um candidato.

Isso não significa que os 73% necessariamente votarão em branco, nem que todos mudarão de posição. Significa apenas que a eleição ainda está longe de apresentar um eleitorado completamente cristalizado.

E a Alfa mostra outra fotografia

A situação fica ainda mais interessante quando se coloca a pesquisa Alfa ao lado da Quaest.

A Alfa ouviu 1.200 eleitores entre 18 e 22 de agosto, por entrevistas telefônicas assistidas por computador. A Quaest entrevistou 804 eleitores entre 20 e 23 de agosto, presencialmente. As duas pesquisas têm margem de erro e nível de confiança diferentes, além de amostras e métodos de coleta distintos.

Na espontânea da Alfa, Moro tem 23%, Sandro Alex 12% e Requião Filho 10%. Quarenta e oito por cento não souberam ou não responderam.

Na Quaest, Moro tem 13%, Requião 7% e Sandro 4%, enquanto os indecisos chegam a 73%.

Não é possível simplesmente colocar um número ao lado do outro e concluir que um instituto está certo e o outro errado.

São pesquisas diferentes, realizadas em períodos diferentes, com metodologias diferentes, amostras diferentes e questionários diferentes.

E isso precisa ser levado em consideração antes de transformar pesquisa eleitoral em verdade absoluta.

A metodologia também importa

Outro ponto que costuma ser ignorado na guerra das redes sociais é como a pesquisa foi feita.

A Alfa utilizou o método CATI, com entrevistas telefônicas assistidas por computador. A Quaest realizou entrevistas presenciais.

Isso não significa que uma metodologia seja automaticamente melhor que a outra.

Mas significa que não estamos comparando exatamente a mesma coisa.

O modo como o eleitor é abordado, o ambiente da entrevista, a composição da amostra, a distribuição geográfica, o questionário, a ordem das perguntas e a maneira como as opções são apresentadas podem influenciar as respostas.

Por isso, quem olha apenas para o percentual final e ignora a metodologia está enxergando somente uma parte da fotografia.

É como comparar duas fotografias de um estádio e concluir que uma delas está errada porque mostra mais gente em determinado setor. Talvez as fotos tenham sido feitas de ângulos diferentes.

O problema não é a pesquisa. É a interpretação da pesquisa.

Pesquisas eleitorais são importantes. Devem ser divulgadas, debatidas e analisadas.

O problema começa quando elas deixam de ser tratadas como instrumentos de medição e passam a ser apresentadas como previsões do resultado da eleição.

A pesquisa é uma fotografia.

Mas uma fotografia não é o filme inteiro.

E, no caso da eleição paranaense, o filme ainda está longe do final.

O levantamento da RealTime Big Data, divulgado em 18 de agosto, por exemplo, encontrou Moro com 37%, Sandro Alex com 22% e Requião Filho com 20% na estimulada. Na espontânea, Moro tinha 15%, mas 53% dos entrevistados não citaram nenhum nome.

Poucos dias depois, a Alfa apresentou Moro com 38%, Sandro com 26% e Requião com 20%.

E então veio a Quaest, com Moro em 37%, Requião em 21% e Sandro em 15%.

A conclusão mais honesta não é que uma pesquisa "desmentiu" a outra.

É que há uma eleição em formação.

O perigo da "eleição já definida"

É justamente aqui que entra um aspecto político que deveria merecer muito mais atenção.

Quando a imprensa, os blogs, as redes sociais e os próprios grupos políticos selecionam apenas o número que interessa à sua narrativa, acabam produzindo uma percepção artificial de realidade.

"Fulano tem 37%."

"Beltrano disparou."

"Eleição está definida."

"Segundo turno já está decidido."

São frases fortes, fáceis de compartilhar e excelentes para produzir engajamento.

Mas podem ser extremamente enganosas quando retiradas do contexto.

Na própria Quaest, 44% dos entrevistados afirmaram que ainda podem mudar o voto até a eleição, enquanto 56% disseram considerar sua escolha definitiva.

Na Alfa, 59% disseram estar totalmente decididos, mas outros 20% afirmaram ter uma escolha que ainda pode mudar e 16% disseram não ter decidido.

Ou seja: até mesmo quando os institutos perguntam diretamente sobre a definição do voto, aparece uma parcela significativa de eleitores que ainda pode mudar de posição.

E isso antes de uma parte importante da campanha ganhar intensidade, antes de toda a propaganda eleitoral e antes de o eleitor conhecer efetivamente propostas, alianças, debates e confrontos entre os candidatos.

O eleitor não pode terceirizar sua escolha para o gráfico

Existe ainda um efeito psicológico importante.

Quando alguém lê repetidamente que determinado candidato "lidera com folga", pode concluir que aquela eleição está praticamente resolvida.

Outro eleitor pode pensar que seu voto "não fará diferença".

Um terceiro pode aderir ao chamado voto útil.

É o chamado efeito de bandwagon (também chamado de efeito adesão ou efeito manada), quando a percepção de que alguém está na frente pode estimular parte do eleitorado a se aproximar daquele candidato.

Por isso, pesquisa eleitoral não apenas mede comportamento.

Ela também pode influenciar comportamento.

É exatamente por isso que a divulgação responsável dos números é tão importante.

Não basta publicar o percentual do candidato.

É preciso informar se é espontânea ou estimulada, o tamanho da amostra, período da coleta, margem de erro, nível de confiança, método utilizado, registro eleitoral e, principalmente, os percentuais de indecisos, brancos e nulos.

Sem isso, o leitor recebe um número, mas não recebe a informação necessária para interpretá-lo.

O que as pesquisas realmente mostram hoje?

Se todas essas pesquisas forem colocadas sobre a mesa, talvez seja possível chegar a uma conclusão muito mais simples — e muito menos espetacular.

Sergio Moro aparece consistentemente entre os primeiros colocados e, nos levantamentos mais recentes, lidera os cenários estimulados.

Isso é um fato.

Mas também é fato que a disputa pelo segundo lugar apresenta diferenças importantes entre os institutos.

E é igualmente fato que uma parcela expressiva do eleitorado ainda não está definitivamente decidida, especialmente quando se observa a pergunta espontânea.

Portanto, afirmar que "a eleição está definida" a partir desses números é transformar uma fotografia em sentença.

Não está.

A eleição será decidida pelo eleitor diante da urna, não pela manchete de um portal, pelo gráfico de um instituto, pela postagem de um blogueiro ou pelo card produzido por uma campanha.

Até lá, haverá novas pesquisas, novos candidatos, alianças, debates, propaganda, ataques, respostas, fatos novos e, principalmente, milhões de eleitores que ainda precisam decidir.

E talvez essa seja a informação mais importante de todas — justamente aquela que menos aparece nas manchetes:

a eleição do Paraná está em movimento.

Quem quiser transformar a pesquisa de hoje no resultado de outubro está fazendo política com estatística.

E confundindo fotografia com realidade.