A frase é dura, mas merece ser levada a sério. "Se o Brasil não acelerar junto, a gente volta para 1500." A afirmação é de Mat Velloso, um dos brasileiros mais respeitados no setor de inteligência artificial, com passagens por Microsoft, Google e Meta. O alerta não é um exagero retórico. É um diagnóstico de quem participou da revolução tecnológica que está redesenhando a economia mundial.
A comparação com o ano de 1500 não significa que o Brasil deixará de existir ou perderá tudo o que construiu. O recado é outro: o país corre o risco de voltar a ocupar uma posição periférica na economia global, fornecendo matérias-primas enquanto importa tecnologia, conhecimento e riqueza produzidos por outras nações.
A inteligência artificial não representa apenas uma nova ferramenta de produtividade. Ela inaugura uma mudança comparável à Revolução Industrial ou ao surgimento da internet. Os países que conseguirem dominar essa tecnologia ganharão competitividade, atrairão investimentos, formarão empresas bilionárias e criarão empregos de maior qualificação. Os que ficarem para trás dependerão cada vez mais das soluções desenvolvidas no exterior.
Enquanto Estados Unidos e China disputam a liderança tecnológica com investimentos de centenas de bilhões de dólares, infraestrutura computacional e formação acelerada de talentos, o Brasil ainda discute temas fundamentais sem apresentar uma estratégia nacional consistente para competir nesse novo cenário. Segundo Velloso, faltam propostas concretas e visão de longo prazo para transformar a inteligência artificial em política de Estado.
Um dos pontos levantados pelo executivo chama atenção: energia.
Pode parecer estranho relacionar inteligência artificial com geração de eletricidade, mas hoje os grandes modelos de IA dependem de gigantescos centros de processamento de dados, que consomem enormes quantidades de energia. Países capazes de oferecer infraestrutura elétrica confiável e abundante tendem a atrair esses investimentos. Para Velloso, esse pode ser um dos diferenciais competitivos do Brasil, caso exista planejamento.
O país possui uma matriz energética relativamente limpa, disponibilidade de recursos naturais e universidades capazes de formar bons profissionais. O problema não está na ausência de potencial, mas na dificuldade de transformar essas vantagens em uma estratégia coordenada.
A corrida da inteligência artificial também não será vencida apenas por governos. Empresas precisarão rever seus modelos de negócios, universidades terão de adaptar currículos, e profissionais deverão aprender novas competências continuamente. A IA deixará de ser um diferencial para se tornar requisito básico em praticamente todos os setores da economia.
O alerta de Mat Velloso também expõe um velho problema brasileiro: a tendência de reagir às transformações quando elas já estão consolidadas. Foi assim na industrialização, na informática, na internet e, mais recentemente, na economia digital. Em muitos casos, o Brasil tornou-se consumidor de tecnologias criadas em outros países, em vez de protagonista de sua produção.
Ainda há tempo para mudar esse cenário, mas a janela de oportunidade é curta. A velocidade com que a inteligência artificial evolui não permite décadas de discussão. O que antes levava uma geração para acontecer agora ocorre em poucos anos.
Talvez a principal mensagem da entrevista não seja o pessimismo da frase sobre "voltar para 1500", mas o senso de urgência que ela transmite. O futuro não será definido apenas por quem tiver mais recursos naturais ou maior população. Será construído por quem conseguir produzir conhecimento, desenvolver tecnologia e transformar inovação em riqueza.
A pergunta que fica é simples: o Brasil pretende participar dessa revolução ou apenas assistir, mais uma vez, ao progresso acontecer do lado de fora?
