A eleição de 2026 entrou, finalmente, em uma fase em que os candidatos não dependem apenas das redes sociais, das entrevistas, dos debates e das aparições públicas para chegar ao eleitor.
Desde 28 de agosto, o rádio e a televisão voltaram a ser oficialmente ocupados pela propaganda eleitoral. No Paraná, o horário gratuito seguirá até 1º de outubro, três dias antes do primeiro turno.
É importante fazer uma distinção: a campanha eleitoral já havia começado oficialmente em 16 de agosto, quando os candidatos passaram a poder pedir votos e realizar atividades de campanha, inclusive na internet. O que começou em 28 de agosto foi a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão.
E a coincidência do calendário não poderia ser mais interessante.
Na primeira semana de setembro, quatro pesquisas eleitorais estão previstas para ser divulgadas no Paraná. AtlasIntel, Paraná Pesquisas, IRG e Veritá devem apresentar seus levantamentos entre quarta e sexta-feira.
Ou seja: serão as primeiras pesquisas capazes de captar, ainda que parcialmente, a reação do eleitor à entrada dos candidatos no rádio e na televisão.
E isso pode ser muito mais importante do que simplesmente saber quem está na frente.
A televisão volta quando a eleição ainda está aberta
As pesquisas divulgadas nas últimas semanas apresentaram números diferentes, mas uma característica comum: há uma quantidade expressiva de eleitores que ainda não cristalizou sua escolha.
Na pesquisa espontânea, quando nenhum nome é apresentado ao entrevistado, os percentuais dos candidatos despencam.
Foi exatamente o que ocorreu na Quaest para o Governo do Paraná: Sergio Moro apareceu com 37% na estimulada, mas apenas 13% na espontânea, enquanto 73% não souberam ou não responderam.
A Real Time Big Data também encontrou uma fotografia semelhante: Moro tinha 35% na estimulada, mas 16% na espontânea; Sandro Alex, 23% contra 9%; e Requião Filho, 20% contra 7%. Na espontânea, 51% não souberam ou não responderam.
Isso significa que a televisão chega justamente quando existe um enorme espaço para disputar.
E esse espaço pode alterar a eleição.
Agora não basta aparecer. É preciso ser reconhecido
O primeiro programa eleitoral tem uma função muito mais básica do que atacar adversários: apresentar o candidato.
Quem é? De onde veio? O que fez? O que pretende fazer? Por que merece o voto?
É natural que os primeiros programas tenham esse caráter.
Foi o que aconteceu na estreia paranaense. Sergio Moro apresentou propostas e procurou dialogar especialmente com o eleitorado feminino; Sandro Alex apostou na continuidade da administração Ratinho Junior e utilizou a participação do governador e de seu vice, Rafael Greca; Requião Filho adotou uma linguagem mais jovem e aproveitou o espaço para críticas aos adversários.
Nada disso deve ser interpretado como definitivo.
É apenas a largada.
O próprio Narrativa.blog observou que os primeiros programas dificilmente seriam capazes de alterar imediatamente os números das pesquisas. E essa é uma avaliação razoável.
A propaganda eleitoral não funciona como um interruptor.
O eleitor não assiste a um programa pela manhã e necessariamente muda o voto à tarde.
Mas a exposição repetida pode produzir algo muito importante: conhecimento, associação de imagem e familiaridade com o candidato.
E é aí que as quatro pesquisas ganham importância
As pesquisas da próxima semana serão observadas com lupa.
Não necessariamente porque serão capazes de dizer quem será eleito.
Mas porque poderão começar a mostrar se a campanha está conseguindo mover o eleitorado.
A AtlasIntel ouvirá 1.800 eleitores entre 27 de agosto e 1º de setembro, por meio de questionário estruturado pela internet, segundo as informações do Blog Politicamente. O levantamento foi registrado sob o número PR-01751/2026 e terá margem de erro de dois pontos percentuais.
Na quinta-feira, está prevista a divulgação do Paraná Pesquisas, com levantamento espontâneo, estimulado e cenários de segundo turno.
Na sexta, devem aparecer os levantamentos do IRG e do Veritá. O IRG terá ainda uma particularidade: segundo o Blog Politicamente, apresentará dois cenários para o Governo do Paraná, um apenas com os candidatos e outro incluindo os respectivos vices.
É um conjunto de pesquisas suficientemente amplo para produzir uma nova fotografia do cenário.
Mas é preciso cuidado.
Não será possível atribuir qualquer mudança exclusivamente à propaganda
Se Moro subir três pontos, não significa automaticamente que foi a televisão.
Se Sandro crescer cinco, também não será possível afirmar que foi exclusivamente o horário eleitoral.
Se Requião cair, muito menos.
Entre uma pesquisa e outra acontecem entrevistas, debates, eventos, notícias, alianças, redes sociais, ataques, respostas e uma infinidade de acontecimentos.
Além disso, os institutos utilizam metodologias diferentes.
A AtlasIntel, por exemplo, fará entrevistas pela internet. Outros levantamentos utilizam entrevistas presenciais ou telefônicas.
Por isso, o mais interessante será observar tendências, e não transformar uma pesquisa isolada em sentença eleitoral.
Mas a televisão pode fazer algo que as redes não fazem
Existe uma diferença fundamental entre a propaganda na internet e o horário eleitoral.
Nas redes sociais, o candidato precisa conquistar o usuário.
O algoritmo decide boa parte do que chega até ele.
Na televisão, o candidato entra diretamente na programação.
É uma comunicação diferente.
Além disso, a televisão ainda possui capacidade de alcançar públicos que não acompanham diariamente o universo político digital.
É por isso que a propaganda eleitoral continua sendo relevante, mesmo em uma época em que o celular parece ter tomado conta de tudo.
No Paraná, os candidatos ao Governo com direito ao horário gratuito têm diferenças significativas de tempo. Sandro Alex, por exemplo, terá 6 minutos e 54 segundos, quase o dobro do tempo destinado a Requião Filho, com 3 minutos e 37 segundos, e Sergio Moro, com 3 minutos e 28 segundos.
Isso é uma vantagem considerável.
Mas tempo, sozinho, não ganha eleição.
Tempo mal utilizado pode simplesmente significar mais minutos de propaganda que ninguém lembra.
A verdadeira disputa começa agora
A primeira semana do horário eleitoral foi, em grande medida, uma apresentação.
A tendência é que isso mude.
Com o passar dos dias, os candidatos terão de deixar a apresentação de lado e começar a enfrentar as questões que realmente interessam ao eleitor.
Segurança, saúde, educação, infraestrutura, impostos, emprego, contas públicas, privatizações, transporte e, inevitavelmente, os próprios adversários.
É aí que a propaganda poderá se tornar mais agressiva.
E é aí também que o eleitor poderá começar a diferenciar quem tem apenas uma boa embalagem de quem possui discurso, proposta e capacidade de sustentá-los.
O rádio e a televisão não substituem as redes — somam-se a elas
Seria um erro imaginar que a volta do horário eleitoral representa o retorno à velha política televisiva.
Não representa.
A campanha de 2026 é híbrida.
O candidato aparece na televisão pela manhã, pode ser cortado em um vídeo para o Instagram, transformado em trecho para o TikTok, comentado em um podcast, distribuído em grupos de WhatsApp e novamente utilizado em uma inserção no dia seguinte.
Um minuto de televisão pode virar horas de conteúdo na internet.
E o contrário também acontece.
Uma declaração feita nas redes pode ser incorporada ao discurso televisivo.
As duas campanhas — a tradicional e a digital — estão cada vez mais misturadas.
E o eleitor continua sendo a variável mais imprevisível
Talvez seja por isso que as quatro pesquisas da próxima semana sejam tão importantes.
Elas chegam justamente no momento em que a eleição começa a ganhar maior exposição pública.
Até agora, boa parte da disputa aconteceu dentro do universo político: redes sociais, blogs, entrevistas, eventos, debates e pesquisas.
Agora, a campanha entra na casa do eleitor e isso pode mudar o jogo.
Mas não necessariamente da maneira que os candidatos imaginam.
O eleitor pode gostar, pode rejeitar, pode não prestar atenção, pode mudar de candidato, pode simplesmente continuar indeciso.
E esse último grupo é enorme.
É por isso que os números que serão divulgados na próxima semana precisam ser lidos com atenção especial para a espontânea, o índice de indecisos e a evolução em relação às pesquisas anteriores.
Mais importante do que perguntar "quem está na frente?" será perguntar:
quem está crescendo? quem está perdendo espaço? quem está conseguindo transformar conhecimento em intenção de voto e, principalmente, quantos eleitores continuam sem saber em quem votar?
Porque a televisão começou. A campanha entrou em uma nova fase. Mas a eleição ainda está longe de terminar.
E, se as pesquisas mostrarem que o enorme contingente de indecisos começa a diminuir, aí sim poderemos dizer que a campanha está deixando de ser apenas uma disputa de candidatos conhecidos e começando a se transformar em uma disputa efetiva pelo voto.
A propaganda entrou no ar. Agora começa a verdadeira briga pela cabeça — e pelo voto — do eleitor.
