NARRATIVA.política, poder e versão

A campanha entra na sala de casa — mas será que o eleitor ainda está lá?

O horário eleitoral tinha um poder extraordinário. Uma campanha conseguia entrar diariamente na casa do eleitor...

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Redação28/08/2026
A campanha entra na sala de casa — mas será que o eleitor ainda está lá?

A partir desta sexta-feira, 28 de agosto, começa oficialmente uma das etapas mais tradicionais das eleições brasileiras: o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão.

Durante 35 dias, os candidatos terão a oportunidade de apresentar propostas, construir uma imagem, atacar adversários e, principalmente, tentar convencer um eleitor que já está sendo bombardeado há meses por vídeos, memes, cortes de entrevistas, pesquisas e conteúdos cuidadosamente produzidos para as redes sociais. A propaganda do primeiro turno vai até 1º de outubro.

É o velho horário eleitoral entrando em uma campanha que já não é mais velha.

E essa talvez seja a grande questão de 2026.

A televisão perdeu o monopólio da política

Durante décadas, aparecer na televisão era praticamente uma condição para uma candidatura ser conhecida.

O horário eleitoral tinha um poder extraordinário. Uma campanha conseguia entrar diariamente na casa do eleitor, apresentar o candidato, mostrar sua família, contar sua história, apresentar obras, promessas e adversários.

Hoje, entretanto, o eleitor não precisa esperar o horário eleitoral.

Ele já recebe política no celular durante todo o dia.

Instagram, YouTube, TikTok, Facebook, WhatsApp e outras plataformas transformaram completamente a comunicação eleitoral. O candidato produz o conteúdo que quer, escolhe o momento, controla a edição e pode direcionar a mensagem para públicos específicos.

Na televisão, existe um tempo determinado.

Na internet, existe potencialmente o dia inteiro.

Na televisão, todos recebem a mesma mensagem.

Nas redes, cada eleitor pode receber uma mensagem diferente.

Essa mudança é gigantesca.

Mas a televisão ainda importa

Seria um erro concluir que rádio e televisão se tornaram irrelevantes.

O horário eleitoral continua tendo uma característica que nenhuma rede social oferece exatamente da mesma maneira: ele coloca a campanha diante de um público que não necessariamente estava procurando por aquele candidato.

O eleitor pode estar assistindo ao jornal, a uma novela, a um programa esportivo ou simplesmente ouvindo rádio e, de repente, recebe uma mensagem eleitoral.

É uma exposição diferente daquela produzida pelo algoritmo.

Nas redes, o conteúdo precisa disputar atenção.

Na televisão, durante o horário eleitoral, a política entra diretamente na programação.

E existe outro aspecto importante: a propaganda eleitoral pode funcionar como uma espécie de apresentação oficial das candidaturas.

É o momento em que os candidatos precisam deixar de depender apenas dos cortes e das manchetes e explicar, ainda que em poucos segundos, quem são, o que defendem e o que pretendem fazer.

O problema é que o eleitor já não assiste passivamente

A velha televisão tinha uma característica que hoje parece quase pré-histórica: o espectador sentava diante do aparelho e assistia ao programa.

Hoje, o eleitor pode assistir à propaganda e, cinco segundos depois, pegar o celular e procurar se aquilo é verdade.

  • Pode comparar.
  • Pode pesquisar.
  • Pode encontrar um vídeo antigo.
  • Pode descobrir uma contradição.
  • Pode compartilhar.
  • Pode atacar.
  • Pode transformar uma frase de 30 segundos em um meme que circulará durante dias.

Isso muda completamente a lógica do horário eleitoral.

A propaganda deixou de ser o ponto final da comunicação política.

Ela pode ser apenas o começo.

E o tempo de televisão continua sendo um ativo político

A distribuição do horário não é igual para todos.

Na disputa presidencial, por exemplo, serão distribuídas 980 inserções de 30 segundos entre as candidaturas com direito ao horário eleitoral. A coligação de Lula terá 434 inserções; o PL, 339; o PSD, 160; e o Avante, 47.

Isso significa que a televisão continua sendo também uma disputa de estrutura partidária.

Quanto maior a representação política da legenda ou da coligação, maior a capacidade de aparecer.

É um recurso eleitoral valioso.

E, justamente por isso, o tempo de televisão pode influenciar estratégias, alianças e composição de chapas.

Mas existe uma contradição

Enquanto a legislação ainda trata rádio e televisão como instrumentos fundamentais de comunicação eleitoral, boa parte do eleitorado já migrou sua atenção para as plataformas digitais.

É como se a política estivesse tentando operar em dois mundos ao mesmo tempo.

Um mundo ainda regido pelo horário eleitoral, pelas inserções de 30 ou 60 segundos e pelos blocos de propaganda.

E outro dominado por vídeos verticais, influenciadores, memes, grupos de WhatsApp, cortes e algoritmos.

O candidato que compreender apenas um desses mundos estará incompleto.

A campanha moderna precisa saber conversar com quem assiste televisão e com quem passa horas no celular.

E há uma ironia: o “gratuito” custa caro

Existe ainda uma informação que raramente aparece quando se fala em "horário eleitoral gratuito".

Ele não é exatamente gratuito.

Os partidos e candidatos não pagam diretamente às emissoras pela veiculação, mas as empresas de rádio e televisão recebem compensação fiscal pelo espaço cedido. Segundo levantamento do Poder360, o mecanismo representa um custo próximo de R$ 1 bilhão aos cofres públicos.

Portanto, o eleitor deveria ter consciência de que aquele espaço não é apenas uma concessão generosa das emissoras.

Existe dinheiro público envolvido.

E isso torna ainda mais importante que o tempo destinado à propaganda seja utilizado para informar, apresentar propostas e permitir que o eleitor conheça melhor quem está pedindo seu voto.

O desafio de 2026

A campanha deste ano chega ao horário eleitoral depois de semanas em que as redes sociais tiveram protagonismo absoluto.

Candidatos passaram meses construindo narrativas, publicando vídeos e tentando produzir conteúdos capazes de viralizar.

Houve também uma sucessão de pesquisas eleitorais, debates e entrevistas.

Agora, a televisão entra definitivamente nesse jogo.

E ela pode mudar algumas estratégias.

Um candidato que ainda é pouco conhecido pode finalmente apresentar sua imagem para milhões de pessoas.

Quem lidera pode tentar consolidar a liderança.

Quem está atrás pode utilizar o espaço para desconstruir os adversários.

E quem tem pouco tempo precisará transformar cada segundo em argumento.

A eleição, portanto, começa a entrar em uma fase diferente.

A propaganda não substitui o debate

E aqui está um ponto fundamental. O horário eleitoral é propaganda.

O debate é confronto.

São coisas diferentes.

  • Na propaganda, o candidato escolhe o que mostrar.
  • No debate, alguém pode perguntar o que ele não gostaria de responder.
  • Na propaganda, a edição está nas mãos da campanha.
  • No debate, a resposta precisa ser dada na hora.
  • Na propaganda, o adversário pode ser apresentado dentro da narrativa escolhida pelo candidato.
  • No debate, o adversário está sentado do outro lado.

Por isso, o eleitor não deveria trocar uma coisa pela outra.

Precisa das duas. Precisa saber o que o candidato promete.

Mas também precisa saber como ele reage quando alguém questiona suas promessas.

A televisão volta, mas não reina sozinha

O horário eleitoral começa nesta sexta-feira em uma eleição completamente diferente daquela em que foi criado.

A televisão continua importante. O rádio continua importante. Mas o celular está no bolso do eleitor.

E o algoritmo está disputando a atenção dele 24 horas por dia. A grande batalha de 2026 será, portanto, pela atenção.

Não basta ter tempo de televisão.

  • Será preciso ter mensagem.
  • Não basta produzir um vídeo bonito.
  • Será preciso convencer.
  • Não basta atacar o adversário.
  • Será preciso explicar o que será feito no lugar dele.

E, principalmente, não basta repetir slogans.

O eleitor de hoje pode receber a mesma informação por televisão, rádio, Instagram, TikTok, YouTube e WhatsApp — e, em segundos, descobrir versões completamente diferentes da mesma história.

É nesse ambiente que começa a verdadeira disputa eleitoral.

O horário eleitoral voltou.

Mas o eleitor mudou.

E talvez essa seja a maior dificuldade de todas para os candidatos:

  • eles finalmente terão alguns minutos para falar com o eleitor — mas precisarão disputar esses minutos com um celular que já está falando com ele o dia inteiro.